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Jão

Review: Como foi o primeiro show de Memórias Póstumas de Jão?

Entre água, teatro e símbolos de sua própria história, cantor transforma o novo álbum em um espetáculo que vai além do formato tradicional de show. […]

Entre água, teatro e símbolos de sua própria história, cantor transforma o novo álbum em um espetáculo que vai além do formato tradicional de show.

Jão deu início à Turnê Memórias Póstumas na última sexta-feira, 25 de setembro, no Nubank Parque, em São Paulo. Depois de mais de um ano longe das grandes turnês, o cantor voltou aos estádios com uma produção que mistura música, teatro, dança e elementos que revisitam diferentes momentos de sua carreira.

Diante de cerca de 60 mil pessoas, o artista apresentou um espetáculo de aproximadamente duas horas e meia, dividido em cinco atos e construído em um palco 360º no centro do estádio.

Mais do que levar o quinto álbum para o palco, Jão criou uma narrativa sobre vida, morte, memória e passagem do tempo, com Isabel Teixeira, um lobo-guará e um grande espelho d’água entre os principais elementos dessa história.

Isabel Teixeira representa a Morte

Antes mesmo de Jão aparecer, quem assumiu o palco foi Isabel Teixeira. Vestida de preto, a atriz abriu a apresentação com uma declamação inspirada em “Estrela da Manhã”, de Manuel Bandeira, preparando o público para o universo teatral da turnê.

Reprodução / Jão no Instagram

Sua presença não ficou restrita à abertura. Isabel retornou outras vezes entre os blocos musicais, interpretando a Morte e conduzindo reflexões sobre existência, espera, finitude e a própria importância da morte dentro do ciclo da vida.

As intervenções funcionam como ligações entre os diferentes atos do espetáculo. Em vez de simples intervalos para mudanças de figurino ou cenário, esses momentos mantêm a narrativa em movimento e aproximam a apresentação de uma montagem teatral.

Na reta final, Isabel deixa o lugar de narradora para dividir fisicamente a cena com Jão. Durante “Passeios Noturnos”, os dois dançam juntos, reforçando que a personagem não está ali apenas para apresentar a história, mas faz parte dela.

A parceria continuará além da estreia. Ao anunciar as novas datas da Turnê Memórias Póstumas, Jão confirmou Isabel Teixeira como sua companheira de cena nas próximas apresentações pelo Brasil e em Portugal.

Balé transforma palco em água

O corpo de balé também assume um papel maior do que simplesmente acompanhar as músicas. Os bailarinos ajudam a contar a história e exploram praticamente toda a estrutura montada no centro do estádio.

No coração do palco está um grande espelho d’água, que passa a fazer parte das coreografias desde os primeiros minutos. Durante “Aurora”, os dançarinos movimentam a água ao redor de Jão e ajudam a criar uma das imagens que define a estética da nova turnê.

A água volta a ganhar protagonismo em músicas como “Doce” e “Jabuticabeira”. Passos, corridas e movimentos do balé fazem com que o cenário mude constantemente, com reflexos, respingos e diferentes formas criadas pela iluminação.

O recurso deixa de funcionar apenas como cenário e passa a responder aos movimentos dos artistas. Em determinados momentos, Jão e os bailarinos aparecem completamente molhados, enquanto a produção ainda utiliza chuva artificial para ampliar a sensação de que o show acontece literalmente sobre as águas.

O próprio cantor resumiu essa ideia depois da estreia ao celebrar que público e equipe haviam “caminhado sobre as águas”, uma imagem que ajuda a traduzir a proposta visual da produção.

Lobo-guará revisita início de Jão

Outro personagem que atravessa a apresentação é o lobo-guará, interpretado pelo ator Luiz Crepaldi.

Reprodução / Jão no Instagram

O animal tem ligação direta com a história de Jão. “Lobos”, lançado em 2018, foi seu primeiro álbum de estúdio e ajudou a estabelecer não apenas sua identidade artística, mas também uma simbologia que acompanha a relação do cantor com seus fãs desde o início da carreira.

Em Memórias Póstumas, esse símbolo retorna de maneira mais teatral.

O lobo aparece ao lado de Isabel Teixeira durante algumas de suas intervenções e participa da narrativa construída pela personagem da Morte. Em um dos momentos, enquanto Isabel fala sobre o animal, figuras caracterizadas como lobos atravessam o palco, conectando visualmente o presente da turnê com o começo da discografia.

Na parte final do espetáculo, Jão, Isabel e o lobo voltam a dividir a cena durante “O Amor”.

A escolha ajuda a transformar a própria carreira do cantor em parte da narrativa. Se Memórias Póstumas olha para lembranças, perdas e para aquilo que permanece, o primeiro grande símbolo de Jão também retorna para ocupar espaço nessa retrospectiva.

O show contou tambem com a participação de Erika Hilton, que subiu ao palco durante “Meninos e Meninas”, uma das músicas mais associadas pelo público à vivência bissexual de Jão. Ao final da apresentação, fez uma breve homenagem à comunidade LGBTQIA+ e declarou seu carinho pelo cantor. A aparição acrescentou um momento de celebração e representatividade ao show, reforçando a conexão da faixa com parte importante do público que acompanha Jão.

Palco 360º amplia espetáculo

Toda essa narrativa acontece em uma estrutura montada no centro do gramado, com mais de 30 metros de largura e diferentes níveis.

Além do espelho d’água, o palco conta com elevadores para músicos, plataformas, estruturas suspensas e equipamentos de efeitos especiais distribuídos ao redor da arena.

Em “Acontece”, por exemplo, Jão toca um piano elevado a vários metros do chão. Já a pirotecnia surge em diferentes pontos da apresentação e ganha força em músicas como “Literatura”.

O formato 360º também permite que Jão, banda e bailarinos estejam constantemente em movimento, ocupando diferentes lados do estádio em vez de manter toda a ação voltada para uma única direção.

Turnê mistura música e teatro

Com a estreia de Memórias Póstumas, Jão parece interessado em borrar ainda mais a fronteira entre show e espetáculo teatral.

Isabel Teixeira conduz parte da narrativa, o balé movimenta a história sobre a água, o lobo-guará recupera um símbolo do passado e o palco cria imagens que mudam de acordo com cada ato.

As músicas continuam no centro de tudo, passando pelo novo disco e por diferentes fases da carreira, mas agora estão inseridas dentro de uma história maior.

É justamente essa combinação que ajuda a definir a nova fase de Jão nos palcos: olhar para o passado sem simplesmente repeti-lo e transformar suas próprias memórias em cena.

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